sábado, 20 de junho de 2009

O PODER NAS REDES SOCIAIS

O PODER NAS REDES SOCIAIS

Tempo estimado de leitura: 17 minutos

‘Carta Rede Social’, ex-‘Carta Capital Social’ (e antiga ‘Carta DLIS’) é uma comunicação pessoal de Augusto de Franco enviada quinzenalmente, desde 2001, para milhares de agentes de desenvolvimento e outras pessoas interessadas no assunto, do Brasil e de alguns países de língua portuguesa e espanhola. A presente 'Carta Rede Social 192' está sendo encaminhada para 11.172 destinatários. Esperamos que esta mensagem seja útil, mas se você não quiser mais recebê-la, basta clicar no link "Sair da Lista" no final da mensagem. Obrigado.

Prezado Paulo Moacir Da Silva,

Muitos estudiosos das redes sociais, sobretudo das impropriamente chamadas “redes sociais na Internet” – como Facebook, Orkut e Twitter, dentre outras várias – tentam aplicar conceitos da velha sociologia para analisar a nova fenomenologia que se manifesta nos padrões mais distribuídos do que centralizados de organização. Um dos conceitos que aplicam é o de ‘poder’.



Sustento que não dá certo. Do ponto de vista das redes, poder é um fenômeno próprio de padrões mais centralizados do que distribuídos de organização. Há poder, no sentido de poder de mandar nos outros, na exata medida em que há centralização, ou seja, hierarquização. Tão simples assim: se uma rede tem 33% de centralização, você poderá “usá-la”, no máximo, por assim dizer, para exercer 33% de poder:





Fig. 1



Mas se ela tem 0% de centralização, então você não poderá exercer nenhum poder (propriamente dito) sobre os outros:





Fig. 2



O que vale, no exemplo das figuras acima, para um mundo de 4 elementos, vale para um mundo de n elementos. Mas é claro que isso é apenas um modo de dizer que o poder nas redes significa centralização.



Do ponto de vista das redes, poder é sempre o poder de:



i. obstruir (fluxos) ou “filtrar”;



ii. separar (clusters) ou “desatalhar”; e



iii. excluir (nodos) ou desconectar.



Em uma rede totalmente distribuída (Fig. 2), não há como fazer nada disso a partir de um nodo ou de um cluster particular (a menos naquele constituído por toda a rede considerada, mas isso não vale porquanto desconstitui o próprio conceito de cluster). Logo, não há como exercer poder.



Afinal, o que são redes sociais (ou: por que o poder é uma medida de não-rede)?



De um certo ponto de vista o que representamos como redes são rastros de fluições: tentativas de capturar uma dinâmica que ocorre no espaço-tempo dos fluxos, ou naquela particular “brana” onde essas fluições existem como tais.

Desse ponto de vista – que deverá ser o da chamada ‘nova ciência das redes’ se e quando os pesquisadores descobrirem que não podem remendar os velhos estatutos das ciências sociais, inserindo seus métodos (matemáticos) de análise para escapar dos discursos descritivos e prescritivos dessas ciências – redes não são o que parecem (nodos linkados entre si, representados por grafos: arestas e vértices) mas movimentos em um campo de fluições (como se fossem configurações de aglomeramentos – ou espalhamentos – de bósons, para fazer um paralelo com partículas mensageiras dos campos de forças físicas).



De um ponto de vista político, entretanto – obrigatório, se quisermos continuar usando o conceito de ‘poder’ sem cometer deslizamentos epistemológicos mais graves – redes sociais (distribuídas) são movimentos de desconstituição de hierarquia (na exata medida dos seus graus de distribuição).



Portanto, ao invés de ficarmos discutindo a possibilidade de alguém exercer poder nas redes, deveríamos estar discutindo a medida da impossibilidade de alguém fazê-lo (e essa medida, convém repetir, é a medida inversa do grau de centralização da rede em questão). Isso porque, conquanto de um ponto de vista topológico, todos os complexos de fluições (ou coleções de nodos e conexões) sejam redes (mais distribuídas ou mais centralizadas), o termo rede é aplicado correntemente à configurações onde há multiplicidade de caminhos (abundância). Não costumamos usar a palavra rede para designar hierarquias (caracterizadas pela escassez de caminhos), a despeito de sacrificarmos com isso o rigor matemático (para o qual todos os sistemas de nodos e conexões devem ser notados como redes independentemente do grau de distribuição).



Ora, se quanto mais caminhos houver entre os nodos menos poder se consegue exercer sobre eles, então – em homenagem à clareza, deveríamos dizer que – o poder é uma medida de não-rede.



A sociologia tem alguma culpa por essa confusão de conceitos. Sua culpa – para resumir em poucas palavras – foi apenas a de não ter compreendido as redes. Ou ter tentado apreendê-las a partir de conceitos inadequados ou impotentes para captar o que está além (ou seria aquém?) da representação: conceitos como ‘representação’, ‘atores sociais’, ‘grupos’, ‘estruturas sociais’ e, por incrível que pareça, ‘social’ e ‘sociedade’. Já havia ela (a sociologia) cometido o mesmo erro com a noção de capital social (e se trata, exatamente, do mesmo erro de vez que a abordagem sociológica não entendeu que ‘capital social’ e ‘rede social’ se referem, exatamente, à mesma coisa).



Vamos, portanto, tentar refazer aqui o caminho desse erro.



Estruturas sociais não são nada se não forem redes



Começo reproduzindo quatro twitts de 28 de abril de 2009 (1):



1) Redes sociais não são modos de representação de grupos de atores sociais.



2) Nada de representação. E rede é ontologicamente “anterior” ao grupo.



3) É a interação e a clusterização que “produzem” o agente (ator).



4) Atores sociais se constituem como tais na medida em que interagem em clusters nas redes sociais.



Um dia antes havia twittado (2):



Pouco importa quem tem mais influência ou é mais seguido. Redes sociais são movimentos de desconstituição de hierarquia.



A sociologia encara as redes como metáforas para organizações sociais, ou seja, para grupos de indivíduos. Então as redes são, para ela, maneiras de apresentar ou visualizar e, às vezes, investigar, relações entre esses indivíduos.



Alega-se que as redes sociais são modos de representação de estruturas sociais, mas o problema é que não se sabe exatamente o que significa “estrutura” social. Esse conceito só passa a ser inteligível se admitirmos que a “estrutura” disso que chamamos de sociedade é conhecida pelas configurações recorrentes das relações entre os indivíduos... Ora, mas isso é, exatamente, o que significa ‘redes sociais’.



E isso significa, portanto, que a rede é “anterior” ao grupo em termos ontológicos. Grupo (agrupamento <= aglomeração <= clustering) já é uma fenômeno que ocorre na rede. Assim, ao invés de dizer que redes são formas de representação de agrupamentos, seria mais razoável dizer que agrupamentos são configurações de rede.

A idéia de que os atores (ou agentes) sociais determinam o comportamento da sociedade quando se agrupam de uma determinada maneira decorre de uma incompreensão da rede; ou seja, de uma incompreensão de que ‘atores’ (ou ‘agentes’) são “produzidos” pela tal estrutura social, quer dizer, pela rede. Indivíduos humanos não são atores (ou agentes) nisi quatenus interagem. Mas quando interagem já são rede. E quando se agrupam (uma forma de interação) não o fazem somente a partir de supostas escolhas individuais, baseadas nas suas características distintivas, posto que já estão sob o influxo da dinâmica de rede. Em outras palavras, seres humanos são seres humano-sociais, não são somente íons vagando em um meio gelatinoso e exibindo suas qualidades intrínsecas e sim também entroncamentos de fluxos, identidades que se formam a partir da interação com outros indivíduos. A pessoa como continuum de experiências intransferíveis e, ao mesmo tempo, como série intermitente de relacionamentos, se comporta como ator (ou agente) por estar imersa (conectada e agrupada) em um ambiente interativo. Portanto, são a interação e a clusterização que “produzem” o agente (ou ator). Ninguém pode ser agente de si mesmo: atores sociais se constituem como tais na medida em que interagem em clusters nas redes socais.



A hipótese – tão recorrente quanto a crença perversa de que o ser humano é por natureza hostil ao semelhante – segundo a qual todo agrupamento tem implícita uma estrutura de poder é gratuita e não se sustenta. Do fato de o poder se manifestar na maioria dos agrupamentos que conhecemos no tipo de sociedade em que vivemos, não se pode derivar que ele se manifesta em todos os agrupamentos. A menos que essa hipótese tenha tomado – como pressuposto implícito, não-declarado – a ideologia hobbesiana de que o homem é o lobo do homem, posto que intrinsecamente (ou constitutivamente) competitivo e outras crenças semelhantes, que nada têm de científicas.



Não se trata apenas de contrabando ideológico. Há aqui um erro metodológico, derivado de um erro lógico ou da operação do pensamento. Pois não existe exatamente uma outra “estrutura” a qual se possa chamar de “estrutura de poder”. Quando falamos em poder estamos falando em determinadas configurações daquela mesma estrutura social; ou seja, estamos falando do grau de centralização da rede social em tela.



Essa cadeia de erros desemboca no erro final que confunde os termos influência e poder. Se alguém recebe mais comentários no seu blog ou é mais seguido no Twitter, de certo exerce mais influência, mas isso não significa que possa exercer mais poder. Das alegações de Barabási (2002) sobre a incidência de hierarquia nas redes “sem escala” (3) – que parecem corretas em princípio – não se pode inferir que sistemas sociais tendam à hierarquia (a menos se estivermos impregnados da crença de que o ser humano é inerentemente competitivo). Depende do grau de centralização. Há, por certo, uma tendência de clusterização nas redes que crescem em número de nodos ou em grau de conectividade, mas isso não significa necessariamente uma tendência à centralização. Pode ser justamente o contrário: a multiplicidade de clusters distribuídos (mais distribuídos do que centralizados) leva à distribuição da rede. Regiões mais tramadas da rede contaminam regiões menos tramadas quando se estabelecem atalhos entre os clusters. Se não fosse assim poderíamos abandonar todas as tentativas de democratizar a sociedade.



Entendendo o poder do ponto de vista das redes



Do ponto de vista das redes, poder é sinônimo de centralização. Mas redes sociais distribuídas e centralizadas são casos limites. As redes sociais que conhecemos têm graus de distribuição (ou de centralização) diferentes, no intervalo entre a máxima centralização (centralizada) e a máxima distribuição (distribuída). Se o grau de distribuição é maior do que o grau de centralização, então a rede pode ser considerada distribuída. Isso, evidentemente, é uma mera convenção, mas faz sentido. Pode-se calcular o grau de distribuição facilmente. Vamos tomar, para começar, os famosos diagramas de Paul Baran (1964) (4).



Fig.3



Pois bem. Rede centralizada é aquela que configura o padrão um-com-todos, enquanto que rede distribuída é aquela que configura o padrão todos-com-todos.



Entre a monocentralização (o grau máximo de centralização, que no diagrama de Baran aparece como rede centralizada) e a distribuição máxima (todos os caminhos possíveis, correspondendo ao número máximo de conexões para um dado número de nodos - que não aparece no terceiro grafo do diagrama de Paul Baran, por razões de clareza de visualização), existem muitos graus de distribuição. É entre esses dois limites que se realiza a maioria das redes realmente existentes.



Portanto, não parece muito consistente falar de rede centralizada ou rede distribuída, a não ser, em termos matemáticos, como limites. A partir de certo número de nodos, nenhuma rede social real consegue ser totalmente centralizada (isso seria supor a inexistência de conexões entre os nodos, mas apenas de conexões entre o nodo central e os outros nodos). Ora, a partir de certo número de nodos é impossível que isso aconteça, pois é o próprio tamanho (social) do mundo que impõe um determinado número mínimo de conexões entre quaisquer nodos escolhidos aleatoriamente. Assim, mesmo que não queiramos, os nodos ligados a um centro tendem também a estar ligados entre si em alguma medida. Esse número de nodos a partir do qual uma rede não conseguirá mais permanecer centralizada depende do mundo em que se está, dos seus graus de separação.



O mesmo vale, mutatis mutandis, para as redes com topologia considerada descentralizada. Existem diferentes graus de descentralização. Mas o menor grau de descentralização já é (localmente falando) um grau de distribuição. A descentralização máxima coincide com a distribuição (quando cada centro coincidir com cada nodo, é óbvio). Distribuir é des-con-centrar. A rigor, portanto, mais de um centro já des-con-centra. Há um problema com o segundo grafo de Baran (o da rede descentralizada). Os nodos conectados a cada um dos múltiplos centros não costumam estar totalmente desconectados entre si como aparece no segundo grafo de Baran (quer pensemos em filiais de uma empresa multinacional, quer pensemos em um partido de células).



Não se trata apenas de encontrar uma fórmula matemática, porque não existe um número ideal para uma rede poder ser considerada distribuída (a não ser o número total de conexões possíveis entre seus nodos, correspondendo ao grau máximo de distribuição).



O assunto merece um tratamento mais cuidadoso. Precisamos de um índice de distribuição de rede.



Propus há um ano o seguinte Índice de Distribuição de Rede (I):





I = (C – D).C/E [Equação 1]





Na equação acima:



C = Número de conexões

D = Número de nodos desconectados com a eliminação do nodo mais conectado (sem contar este último)



E = Número de conexões eliminadas com a eliminação do nodo mais conectado.



Quando esse índice é mínimo (I = 0) temos uma rede centralizada (o caso limite de uma rede totalmente centralizada).

Quando esse índice é máximo (I = Imax) temos uma rede distribuída (é o caso limite de uma rede totalmente distribuída).



É claro que o Índice Máximo de Distribuição (Imax) pode ser calculado a partir do número de conexões (independentemente da configuração particular que assume a rede). Enquanto que o Índice Mínimo de Distribuição (Imin) será sempre igual a zero (correspondendo a uma rede totalmente centralizada).



Assim, para calcular o Imax (rede totalmente distribuída), pode-se aplicar a mesma equação acima (Equação 1), colocando no lugar de C (Número de Conexões), o Número Máximo de Conexões (Cmax), calculado, por sua vez, a partir da Equação 2 (abaixo):





Cmax = (N – 1).N/2 [Equação 2]





onde N = Número de nodos.



As duas equações são válidas para quaisquer números de nodos, inclusive para o caso limite de um mundo com dois nodos, no qual não há diferença entre rede distribuída e rede centralizada (hierarquia) e, portanto, não se pode falar propriamente de rede. Com efeito, para um mundo de dois elementos (N = 2): Cmax = 1. Neste caso, o Índice de Distribuição Máxima (Imax) será: Imax = 0 (ou seja, será nulo, indicando uma rede totalmente centralizada).



Vejamos alguns exemplos simples, de redes com pouquíssimos nodos. Para um mundo de três elementos (N = 3): Cmax = 3 e, conseqüentemente, Imax = 0,5; para um mundo de quatro elementos: Cmax = 6 e Imax = 12; para um mundo de cinco elementos: Cmax = 10 e Imax = 25; e assim por diante.



Para cada um dos diferentes números de nodos considerados acima (2; 3; 4; e 5), os valores de Imax (respectivamente 0; 0,5; 12; e 25) correspondem a 100% de distribuição. A partir daí podemos atribuir porcentagens a cada configuração possível da rede.



Por exemplo, no caso de um mundo de 4 elementos (N = 4), temos os seguintes valores de I: I = 0 (rede totalmente centralizada, correspondendo a 0% de distribuição); I = 3 (rede com 25% de distribuição); I = 4 (rede com 33% de distribuição); I = 8 (rede com 67% de distribuição); I = 8,3 (rede com 69% de distribuição); e, finalmente, I = 12 (rede com 100% de distribuição; ou seja, rede totalmente distribuída). E, nesse mundo (de quatro elementos), portanto, só temos 6 configurações possíveis de rede, seis topologias distintas.



Cabe repetir que uma rede totalmente distribuída (Imax) é um caso matemático limite, no qual a eliminação do nodo mais conectado não desconecta nenhum outro nodo da rede (ou seja, em que D = 0).



Não basta, entretanto, que D seja igual a zero para caracterizar uma rede totalmente distribuída. Também é necessário que C (número de conexões) seja máximo: C = Cmax (e essa variável, como vimos, depende apenas do número de nodos) e que E (número de conexões eliminadas com a eliminação do nodo mais conectado) seja mínimo.



A distribuição (medida pelo índice I) cresce com o número de conexões (C). E descresce com o crescimento de nodos desconectados e de conexões eliminadas, porém em razões distintas. Eliminar um nodo pode, em alguns casos, desconectar apenas mais um nodo e, simultaneamente, muitas conexões. O número de conexões eliminadas com a eliminação de um nodo é – na razão direta do número de nodos da rede (N) – muito maior do que o número de nodos desconectados. As duas variáveis – D e E – comportam-se, assim, de modo diferente para efeitos de distribuição.



Enquanto a Equação 2 é rigorosamente correta em termos matemáticos, a Equação 1, que estabelece um Índice de Distribuição, é uma definição, e, como tal, é uma convenção (arbitrária, portanto, como ocorre com qualquer índice). Nesta convenção, co-implicamos distributividade e conectividade. Poderíamos dizer que uma rede distribuída é toda aquela em que D = 0, ou seja, em que um nodo qualquer, se for desconectado, não desconecta qualquer outro nodo da rede. No entanto, optamos por considerar que o grau de distribuição de uma rede aumenta na medida em que diminui o número de conexões eliminadas com a eliminação do nodo mais conectado. Essa consideração, conquanto arbitrária, tem uma justificativa conceitual: ela se baseia na idéia de que a rede não é, na verdade, um conjunto de nodos, mas de fluxos que se interpenetram. Assim, a distribuição máxima corresponde a uma conectividade máxima (todos com todos).



Destarte, alguns teoremas esclarecedores podem ser demonstrados com o auxílio dessa equação. Por exemplo, na rede com grau máximo de distribuição cada nodo tem o mesmo número de conexões do que o nodo central da rede com grau máximo de centralização. Não há aqui uma grande descoberta. Mas o tratamento adotado é sugestivo porquanto deixa claro que, em geral, toda vez que eliminamos nodos ou caminhos (conexões), criamos centralização (ou acrescentamos à rede algum grau de centralização, reduzindo o valor de I).



Um outro exemplo interessante do efeito ilustrativo do presente tratamento é o cálculo do número de configurações que correspondem a graus diferentes de distribuição. Em um mundo de cinco elementos conectados em rede, temos, entre a centralização máxima (Imin = 0 => 4 conexões) e a distribuição máxima (Imax = 25 => 10 conexões), 16 configurações intermediárias diferentes.



Em geral, encontraremos sempre alguns centros, mesmo nas redes consideradas (pelo critério acima) distribuídas. Isso não significa que não existam redes com 100% de distribuição (em aglomerados pequenos), correspondendo a 100% de conectividade (todos-com-todos). Penso já ter mostrado as vantagens de considerar a distribuição juntamente com a conectividade.



Todavia, em redes com grande número de nodos é mais difícil encontrar 100% de distribuição-conectividade. Alguns estimam – baseados no Número de Dunbar (5) – entre 80 e 150 pessoas o tamanho máximo dos grupos em que cada nodo pode ter acesso imediato a qualquer outro (sem grau de separação) e, além disso, em que todos possam com-viver com todos (com-viver aqui evocando relações freqüentes, reiteradas). Na verdade, não se sabe. Mas esse, com certeza, é um motivo pelo qual uma rede distribuída só poderá perdurar como tal por meio da clusterização, com o surgimento de múltiplos aglomerados nos quais se possa realmente ter uma com-vivência que dê origem a comunidades (tecidos com alta tramatura).



Existindo, portanto, centros remanescentes em uma rede distribuída (quer dizer, mais distribuída do que centralizada), parece razoável supor um movimento interno de deslocamento entre tais centros no que diz respeito à capacidade de entroncar fluxos (isso é, aliás, o que chamamos de liderança nas redes distribuídas, sempre uma multiliderança e nunca uma monoliderança; e isso, talvez, corresponda ao que freqüentemente se chama de poder).



Mas isso não significa necessariamente hierarquia enquanto capacidade de obstruir (ou filtrar) fluxos, derrubar pontes (ou eliminar atalhos) entre clusters e excluir (ou desconectar) nodos (ou seja, como "poder vertical" ou poder propriamente dito). Autoridade não é necessariamente poder (nesse sentido próprio do termo, de poder de obstruir, separar e excluir). Pode-se dizer que a liderança móvel e temporária exerce uma autoridade móvel e temporária. Se esse autoridade é usada para obstruir fluições, filtrá-las ou direcioná-las segundo um padrão recorrente, então a autoridade se constitui como poder (de mandar nos outros) e, aí, configura-se uma estrutura (e uma correspondente dinâmica) hierárquica.



Redes como movimentos de desconstituição de hierarquia



Assim como a democratização é um movimento de desconstituição de autocracia, as redes são um movimento de desconstituição de hierarquia. Isso é mais do que um paralelo evocativo. Trata-se, a rigor, do mesmo movimento se entendermos por redes as redes distribuídas (quer dizer, mais distribuídas do que centralizadas).



As redes estão para a hierarquia assim como a democracia está para a autocracia. O fato de não termos, a não ser em certas condições e circunstâncias particulares, redes totalmente distribuídas (o que acompanha os graus de conectividade e soe acontecer em pequenas comunidades), não quer dizer que as redes distribuídas não sejam o contrário da hierarquia (assim como o fato de não termos democracias plenas - ou pluriarquias - não significa que a democracia não seja o contrário da autocracia; e o fato de não termos alcançado liberdade máxima não significa que a política, tal como os democratas gregos usavam o conceito, não seja o contrário da guerra e da ordem imposta top down). O importante aqui é o sentido: redes distribuídas são movimentos de desconstituição de hierarquia porque o sentido do estabelecimento de múltiplos caminhos (redes: disposição para a abundância) é o sentido oposto ao da manutenção de caminhos únicos (hierarquias: geração artificial de escassez).



Parece óbvio, a esta altura da discussão, que a questão do poder precisa ser melhor tratada quando se está falando de redes. As redes empoderam seus membros (na medida do seu grau de distribuição-conectividade). Mas empoderar-se (no sentido de empowerment) é, de certo modo, o contrário de apoderar-se (no sentido de se apossar de um recurso tangível ou intangível estabelecendo um diferencial de acesso em relação a um conjunto qualquer de sujeitos e, a partir daí, estabelecer um poder sobre esses sujeitos com base na escassez desse recurso).



Ainda que sempre haja uma zona cinzenta onde o empoderado (pelos outros) possa exercer poder (sobre os outros), os sentidos dos dois processos são contrários. Esta zona cinzenta está mais no cérebro (e no olho vesgo) de quem está vendo o "poder" que alguém recebe como influxo do campo social em que está inserido como aquele poder que alguém impõe obstruindo, separando e excluindo (sim, é bom repetir, aqui está a gênese do poder hierárquico). Então alguém que tem mais influência porque entronca mais conexões (desempenhando o papel de hub e estabelecendo atalhos entre clusters), ou porque estabelece novos fluxos para o futuro, i. e., para inventar mais possibilidades de futuro (desempenhando o papel de inovador), ou porque aumenta seus graus de empatia por compartilhamento com os demais (desempenhando o papel de netweaver), não é alguém que se apoderou (obstruindo caminhos, derrubando pontes e eliminando conexões entre nodos).



Chamar as duas coisas com a mesma palavra 'poder' produz incompreensão. Mas nesse equívoco estão incorrendo, em especial, os que estudam as chamadas "redes sociais" na Internet quando argumentam que as redes que investigam não são distribuídas porquanto alguns membros nelas detêm muito mais poder do que os outros pelo fato de serem mais conhecidos ou mais seguidos e, assim, terem muito mais influência. Ora bolas, isso só significa que eles estão mais empoderados (pela própria rede) do que os outros e não que eles tenham assumido mais poder (que não é um ente objetivável em si e sim uma relação que se estabelece em função de topologias mais centralizadas do que distribuídas).



Até a ‘Carta Rede Social 193’ e um abraço do



Augusto de Franco

augusto@augustodefranco.com.br

http://escoladeredes.ning.com



18 de junho de 2009.



Notas e referências



(*) Escrevi este texto a partir de um comentário que fiz a um post de Raquel Recuero (Social Media: 29/03/09), intitulado “Redes Sociais como Estruturas de Poder” e da réplica ao comentário de Carlos Boyle ao meu post “Comentários sobre o artigo – muito ruim – de David Wilcox” (Escola-de-Redes: 24/04/09). Interpolei uma parte – relativa ao Índice de Distribuição de Rede – já escrita originalmente em julho de 2008 (para a Carta Rede Social 168) e publicada no meu livro Escola de Redes: novas visões sobre a sociedade, o desenvolvimento, a Internet, a política e o mundo glocalizado (Curitiba: Escola-de-Redes, 2008).

(1) http://twitter.com/augustodefranco

(2) Idem.

(3) BARABÁSI, Albert-László (2002). Linked: how everything is connected to everything else and what it means. New York: Basic Books, 2002.

(4) BARAN, Paul (1964). On distributed communications:

http://www.4shared.com/file/72692248/d4d34afa/RM3420.html

(5) Cf. DUNBAR, Robin e HILL, R. (2002): Social network size in humans:

http://www.4shared.com/get/101151101/a82cdef6/Hill_Dunbar_networks.html

DUNBAR, Robin (1993): Co-evolution of neocortex size, group size and language in humans:

http://www.bbsonline.org/documents/a/00/00/05/65/bbs00000565-00/bbs.dunbar.html

sábado, 9 de maio de 2009

O EMPRESARIADO E A POLÍTICA NA SOCIEDADE HIERÁRQUICA E NA NOVA SOCIEDADE EM REDE

Carta Rede Social 189
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O EMPRESARIADO E A POLÍTICA NA SOCIEDADE HIERÁRQUICA E NA NOVA SOCIEDADE EM REDE

[Tempo estimado de leitura: 12 minutos]

‘Carta Rede Social’, ex-‘Carta Capital Social’ (e antiga ‘Carta DLIS’) é uma comunicação pessoal de Augusto de Franco enviada quinzenalmente, desde 2001, para milhares de agentes de desenvolvimento e outras pessoas interessadas no assunto, do Brasil e de alguns países de língua portuguesa e espanhola. A presente 'Carta Rede Social 189' está sendo encaminhada para 14.256 destinatários. Esperamos que esta mensagem seja útil, mas se você não quiser mais recebê-la, basta clicar aqui e enviar. Obrigado.


Prezado Paulo Moacir da Silva,

Alguns empresários têm feito um meritório esforço para incentivar um novo tipo de participação do setor empresarial na política. Não tem sido muito fácil. Tudo indica que as dificuldades encontradas não estão apenas na inadequação das formas de mobilização e organização que vêm sendo tentadas. Ou seja, não se trata de encontrar novos métodos, técnicas, artifícios ou recursos que, supostamente, seriam capazes de chamar a atenção do setor empresarial para a necessidade de assumir sua responsabilidade política. Para além do habitual descrédito que caracteriza o setor quando se trata de desenvolver uma atuação política mais proativa – acostumado que foi a intervir nos bastidores ou a exercer formas de pressão predominantemente reativas e reivindicativas – parece haver aqui um problema mais profundo, que diz respeito a natureza da atividade empresarial tal como se constituiu no capitalismo que conhecemos e às suas relações com o velho sistema político.

Freqüentemente o empresariado não fala para a sociedade, nem pela sociedade, mas apenas para si, corporativamente, e por si, quer dizer, tendo em vista apenas a si mesmo como sujeito. Não faz propostas para os outros setores ou só se comunica com eles a partir de propostas que visam a atender os seus próprios interesses. Não é por acaso que só participe da política com uma agenda de interesses: seja mandando fazer estudos de alto nível para entregar as autoridades, seja articulando lobbies nos parlamentos ou nos governos, seja financiando candidaturas, o propósito do empresariado, ao tentar influir na política, não raro se restringe a obter – via de regra do Estado – algum tipo de vantagem.

Assim agindo o empresariado não assume seu papel de ator político, não exerce protagonismo e, conseqüentemente, não é reconhecido como um agente capaz de expressar os interesses comuns da sociedade. Continua, dessarte, sendo um ator subalterno, condição que é retro-alimentada pelo velho sistema político, sobretudo pelos parlamentares que querem financiamento para fazer suas próximas campanhas e pelos governantes que querem se reeleger ou indicar seus sucessores.

Os governos, agindo com esperteza, deixam pendida sobre a cabeça do empresariado a espada da fiscalização. Eles sabem que, se for para fiscalizar mesmo, quase ninguém escapa. O empresário também sabe disso e tem medo. A conseqüência é que, quase sempre, o empresariado entra no jogo da velha política.

Também não é por acaso que ninguém preste muita atenção aos reclamos do setor empresarial. Entra ano, sai ano, é a mesma cantilena de sempre: os empresários e suas entidades corporativas afirmam que o crescimento econômico resolverá todos os problemas do país ou da humanidade, reclamam dos altos impostos, imploram pela redução dos juros, exigem políticas estatais de proteção ou concessão de algum tipo de vantagem ou privilégio setorial ou territorial (em geral nacional).

O fato é que os grandes empresários tradicionais, que estão sempre, em alguma medida, associados aos governos, parecem não gostar muito de livre mercado. A impressão que se tem é que eles querem mesmo é mais Estado – a seu favor, é claro. Isso é assim desde que surgiu o capitalismo como resultado de um bem-sucedido conúbio entre empresa monárquica e Estado hobbesiano. O resto é conversa de economistas e de filósofos do liberalismo econômico.

No último século alguma coisa mudou, é certo: o Estado-nação se democratizou um pouco, o grande capital se pulverizou nas mãos de múltiplos acionistas (conquanto as empresas tenham permanecido monárquicas do ponto de vista dos seus sistemas de governança ou modelos de gestão), mas a tendência inercial do empresariado de buscar vantagens e privilégios no Estado (como se o Estado tivesse a eterna obrigação de proteger e promover os seus negócios) permaneceu insuflando um comportamento retrógrado e regressivo dos grandes empresários do ponto de vista político. Não foi exatamente esse tipo de comportamento que vimos agora – na crise desencadeada pela descoberta dos créditos podres do sistema habitacional americano – da parte de seguradoras, bancos e montadoras de automóveis?

Um problema de concepção

Não é por acaso que os grandes empresários são sempre a favor dos governos. E não apenas por medo de retaliação fiscal, mas também por visão, por concepção. Eles pensam mais ou menos assim: pagamos escorchantes impostos, criamos empregos, dinamizamos a atividade econômica, geramos praticamente todo o produto interno bruto do país: logo, temos o direito de obter dos governos condições especialmente favoráveis de gerar cada vez mais valor para nossos acionistas. Para tanto, não podemos antagonizar qualquer governo e sim manter com os governantes (sejam eles quais forem) aquela secular sociedade que até aqui foi tão bem-sucedida. É a regra do jogo. Uma regra que empresas como Ig Farben (Agfa, Casella, Basf, Bayer, Hoeschst, Huels, Kalle), Krupp e Siemens não ousaram quebrar (mesmo quando o governante atendia pelo nome de Hitler).

Não é de espantar, portanto, que os empresários apóiem governos que praticam corrupção e banditismo (são fartos os exemplos de empreiteiras que têm levado essa prática ao paroxismo, mas não só elas: da siderurgia à intermediação financeira, quem é grande, por ação ou omissão, acaba compactuando de alguma forma com a bandalheira dos governos fora-da-lei ou carentes de legitimidade democrática). Não estão nem aí se isso acaba corroendo sua capacidade de inovar para se desenvolver. E que, como conseqüência, em vez de investirem em pesquisa e desenvolvimento para enfrentar saudavelmente a concorrência, as empresas fiquem seduzidas pelo ganho fácil que pode advir da sua associação com os poderosos. Ou fiquem tentando influir para reduzir seus riscos, obter garantias, concessional loans, às vezes, privilégios, reservas e outras proteções estatais que falsificam as regras de mercado.

Por que deveriam arriscar dinheiro com dispendiosas explorações prospectivas se já têm o mapa do tesouro nas mãos? Na sua visão torta, dinheiro público é sinônimo de dinheiro sem dono. No Brasil e em vários países com índices semelhantes de desenvolvimento humano e social, boa parte da engenhosidade empresarial se esgota na urdidura de meios para se apropriar desses recursos. As folhas corridas dos negócios de nossas grandes empresas revelarão, em algum momento, aquela mãozinha enrugada – nesse caso, nem sempre tão invisível – de uma decrépita, porém generosa, Viúva.

Como já se disse aqui, quem gosta de exalçar as capacidades autoreguladoras do mercado são os economistas (uma parte deles, pelo menos). Empresários tradicionais já estabelecidos, que têm como preocupação central garantir a qualquer custo a sua posição no mercado para galgar posições cada vez mais altas, não caem nessa conversa. Eles não são – nunca foram – ideólogos do capitalismo dos livros, quer dizer, adeptos das ideologias construídas sobre o capitalismo, como o liberalismo econômico ou neoliberalismo.

Há quem goste, realmente, de livre mercado: os empreendedores emergentes. Mas eles gostam do livre mercado não em razão de alguma conversão ao credo econômico liberal e sim porque precisam de fato da liberdade do mercado para poder entrar no mercado. Quem já está dentro, em geral, não gosta dessa liberdade porque encara a concorrência como uma ameaça às posições que conquistou.

Políticas estatais no campo econômico voltadas ao empresariado, como as chamadas políticas industrial, agrícola, comercial ou bancária, envolvem quase sempre uma dose de oferta estatal de subsídios (direta ou indiretamente, por meio de regulação favorável e quase sempre casuística, incentivos e renúncia fiscal), quer dizer, de valor que não foi gerado diretamente pela atividade econômica empresarial, mas adveio da transferência de recursos fiscais. Em outras palavras, o modelo transfere recursos públicos (da sociedade) para a atividade privada (dos empresários). Tudo é sempre uma variação do protecionismo, algumas vezes de caráter nacional, outras vezes de caráter setorial. Os burocratas estatais escolhem então alguns setores que deverão ser protegidos do livre mercado, seja em nome de um suposto interesse estratégico nacional, seja em nome da segurança nacional, seja em nome da necessidade de distribuir renda ou de gerar mais empregos ou mais superávits para financiar direta ou indiretamente algum sistema de proteção social.

O fato é que os assim chamados “grandes capitalistas” tradicionais conquanto não gostem muito do capitalismo tal como está nos livros, com toda aquela conversa de igualdade de oportunidades e da liberdade do indivíduo de empreender, até aceitam as inovações incorporadas pelo capitalismo hodierno, como as políticas governamentais de distribuição de renda, mas ficam com um pé atrás quando se trata da distribuição de riqueza (ou democratização do acesso à propriedade produtiva). Querem, sim, mais consumidores (com renda suficiente para comprar seus produtos e serviços), mas não mais empreendedores (que são vistos como potenciais competidores). No limite, se todos forem capitalistas, o capitalismo – tal como o concebem – desmonta-se. Capitalismo bom, para eles, é o capitalismo em que só alguns são capitalistas. Se todos se dedicarem à atividade empresarial, correndo atrás da realização dos seus próprios sonhos, quem se disporá a alugar sua força de trabalho para realizar o sonho alheio? Sem poder se apropriar de um sobrevalor gerado pelo trabalho coletivo daqueles que renunciaram – ou não tiveram condições de – ter seu próprio negócio (isto é, os empregados, eufemística e incorretamente chamados de “colaboradores”), os grandes empresários tradicionais avaliam que perderiam o estímulo para manter seus negócios.

Uma sociedade de empreendedores não seria uma sociedade capitalista; não, pelo menos, tal como o capitalismo foi praticado até aqui: concentrando riqueza ou estabelecendo condições diferenciais de acesso à propriedade produtiva e aos recursos humanos e sociais necessários para dinamizá-la.

Os velhos argumentos empresariais

Os empresários tradicionais dizem que as coisas não são bem assim no mundo real. Alguns alegam que nem todos são “por natureza” empreendedores (como se o empreendedorismo dependesse da presença de um gene).

Outros argumentam que o empreendedor é estimulado a sê-lo em virtude de uma herança cultural adquirida a partir do berço, no meio familiar ou social em que nasceu ou foi educado, e que, infelizmente, nem todos têm tal oportunidade na sociedade em que vivemos.

Outros, ainda, dizem que essa condição ideal só se materializaria em sociedades igualitárias e/ou ricas o suficiente para proporcionar a todos o capital inicial necessário para investir em um negócio próprio.

Por último, há os que levantam – com certa razão – que ainda que todos tivessem as mesmas condições econômicas, humanas e sociais para empreender, só uma parte da população se dedicaria à atividade empresarial, em virtude da saudável diversidade de vocações, gostos e preferências pessoais. Tem gente que não quer viver uma aventura desse tipo, seja porque não suporta psicologicamente os riscos que lhe são inerentes, seja porque quer se dedicar às artes, à ciência, à política, à vida comunitária, à espiritualidade ou à contemplação. Além disso, há várias formas de empreendedorismo – social, cultural, político – e não apenas a forma econômica empresarial.

Afastada, porém, a hipótese genética (que além de ridícula é perigosa), muitas questões se colocam a partir desses argumentos. Entre os que argumentam que alguns, embora sendo geneticamente iguais, ficaram diferentes dos outros – ou se destacaram dos demais – desenvolvendo capacidades especiais por razões fortuitas ou em virtude das condições peculiares em que viveram (da infância à idade adulta), encontram-se os propagadores das ideologias do liderancismo. Essas ideologias, que têm contaminado os meios empresariais nas últimas décadas, mereceriam um tratamento a parte. Seu sentido, em geral, é claramente legitimatório ao apresentarem razões individuais para “explicar” por que só alguns vencem na vida ou fazem sucesso (numa acepção competitivo-excludente da idéia).

Nos argumentos dos que levantam – com razão – que nem todos fazem a escolha pelo empreendedorismo empresarial, camufla-se freqüentemente a natureza do problema. É claro que isso é verdade. Mas a natureza do problema só se revelará se conseguirmos explicar por que, entre todos os que escolhem se tornar empresários, só alguns conseguem trilhar satisfatoriamente tal caminho. Vista nestes termos a questão poderia ter uma resposta estatística: ora, porque em qualquer atividade submetida a uma dinâmica variacional – e, portanto, dependente, em grande parte, do acaso – só uma porcentagem dos agentes consegue se adaptar e sobreviver (o que, no caso, significa crescer).

No entanto, as coisas não seriam exatamente assim se o sistema “funcionasse” de maneira diferente. Num sistema em que o crescimento não fosse a condição de sobrevivência, todos – os que quisessem, bem-entendido – poderiam ser empresários, desde que não precisassem crescer para sobreviver, mas apenas se desenvolver. Em um mundo desse tipo bastaria empreender atividades econômicas para ser empresário, sem a necessidade de ter que se associar ao poder estatal para conseguir condições diferenciais de vender ilusões (gastar com marketing pesado), aprisionar corpos (alugar e confinar força de trabalho alheia), construir pirâmides (erigir organizações hierárquicas com dinâmicas de funcionamento baseadas em comando-e-controle) ou travar guerras (encarar os demais players como inimigos e se comportar adversarialmente na relação com eles).

Mudanças à vista

Na transição, que está em curso, do velho mundo industrial para uma nova era do conhecimento e da sociedade hierárquica para uma sociedade em rede, já se percebem alguns sinais de mudança para novos tipos de capitalismo ou novos ‘modos de produção’ (como se dizia) nos quais o desenvolvimento humano e social passa a ser a principal condição para empreender economicamente. É o caso, por exemplo, da peer production e do crowdsourcing, nos quais miríades de empreendedores se conectam em rede para produzir algum bem ou para prestar algum serviço, sem ter a necessidade de reter em suas mãos a propriedade dos ‘meios de produção’ (como se dizia) e toda uma infra-estrutura material e uma super-estrutura política (idem) para manter o acesso diferencial a tal propriedade.

Na medida em que o principal fator de produção passa a ser o conhecimento – um recurso intangível, que não pode ser estocado, aprisionado, protegido, separado, sob pena de decrescer e perder valor, mas, ao contrário, quando compartilhado e submetido à polinização ou à fertilização cruzada com outros conhecimentos, cresce, dá origem a novos conhecimentos e aumenta de valor (gerando inovação) – o novo empresário não precisará mais de uma estrutura hard instalada para produzir e nem, muito menos, de apoio político privilegiado para manter em suas mãos tal estrutura funcionando.

Parece evidente que, em tais condições, tendem a ser rompidos os velhos laços de interesse recíproco e as relações deformantes entre privado e público estabelecidas entre os empresários e o sistema político.

Os que acham que isso só ocorrerá em futuro remoto, podem estar correndo sérios riscos. Pois sobreviverão nestas novas formas de capitalismo ou de empreendedorismo empresarial apenas os que estiverem preparados para se adaptar às mudanças que já se anunciam.

Tal preparação implica uma mudança radical de comportamento. Em vez de tentar conseguir vantagens comparativas na base da esperteza em se apropriar de recursos da sociedade, as empresas que quiserem aumentar suas chances de sustentabilidade devem investir em pesquisa e desenvolvimento para conseguir se manter inovando continuamente, vivendo a vida dos “ecossistemas” em que estão inseridas e contando com os recursos de uma ampla rede de stakeholders – recursos estes que elas não conseguiriam comprar sozinhas sem inviabilizar sua inserção no mercado (uma grande empresa pode contratar 200 especialistas em um assunto, mas não pode contratar 2 mil para cada assunto relacionado à sua atividade, sob pena de não conseguir praticar preços competitivos; e para se manter na ponta da inovação, logo, logo, será necessário lançar mão de processos de inteligência coletiva que envolvem multidões de interagentes livres e não apenas algumas poucas dezenas ou centenas de cérebros confinados).

Para tanto, é claro, a empresa terá que deixar de ser uma unidade administrativo-produtiva isolada e passar a ser um comunidade de negócios configurada na rede de seus stakeholders, o que significa dizer que ela terá que iniciar a transição da sua forma atual empresa-pirâmide para uma empresa-rede.

Não, não se trata aqui de especulação sobre um futuro longínquo. Agora é a hora. Iniciar tal transição já implica adotar um novo comportamento político.

Até a ‘Carta Rede Social 190’ e um abraço do

Augusto de Franco
augusto@augustodefranco.com.br

7 de maio de 2009.


LEVANDO A SÉRIO O DOMÍNIO PÚBLICO

Os dois primeiros livros da coleção Escola de Redes já podem ser baixados em formato PDF:

Escola de Redes: Novas visões sobre a sociedade, o desenvolvimento, a internet, a política e o mundo glocalizado.

Escola de Redes: Tudo que é sustentável tem o padrão de rede: sustentabilidade empresarial e responsabilidade corporativa no século 21.

Clique no link abaixo para fazer o download em PDF:

http://www.vintequatro.com/2008/10/13/levando-a-serio-o-dominio-publico/

Para adquirir exemplares em papel escreva para livraria@aed.org.br. Pode demorar um pouco, é fato, mas tenha fé que você recebe!

sábado, 21 de março de 2009

Do mestre

Postado por Paulo Coelho em 21 de março de 2009 às 01:54

O grande mestre zen de Tofuku notou que o mosteiro estava em rebuliço. Noviços corriam de um lado para o outro, e empregados faziam fila para recepcionar alguém.

“O que está acontecendo?”, quis saber.

Antes que alguém pudesse responder, um soldado aproximou-se do mestre, e deu-lhe um cartão onde se lia: “Kitagaki, o governador de Kioto, acaba de chegar e pede uma audiência”.

“Não tenho nada a tratar com esta pessoa”, disse o mestre.

Minutos depois o governador se aproximou, pediu desculpas, riscou o cartão, e entregou-o de novo ao mestre.

Estava escrito: “Kitagaki acaba de chegar, e pede uma audiência”.

“Seja bem-vindo”, disse o mestre zen de Tofuku.

Lula canta de galo

18/03/2009
Assim como se descolou do mensalão e de otras cositas más, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se descola agora da crise econômica que derruba as expectativas de crescimento e os níveis de emprego, no Brasil e em todo o mundo, em 2009.

Como já disse o senador, ex-ministro e ex-governador Cristóvam Buarque, com fina e realista ironia, "tudo o que é bom foi o Lula quem fez, e tudo o que é ruim, a culpa é dos outros".

O que é bom: a estabilidade da moeda; o Proer, que fortaleceu o sistema financeiro interno; as privatizações, que deram impulso inédito a setores como a telefonia; e a inserção internacional, produtos da era de Fernando Henrique Cardoso que agora entram na contabilidade favorável de Lula --que, aliás, se referia a coisas assim como "herança maldita", lembra?

O que é ruim: a crise em si, a queda na previsão do crescimento e o aumento do desemprego, os solavancos nas Bolsas, tudo isso é culpa dos outros: os Estados Unidos, o George W. Bush, o mundo desenvolvido. Só que, neste caso, Lula tem razão. Ou seja: tem discurso. E as pesquisas já mostram que a população, já disposta a acreditar, porque acredita em tudo o que Lula diz, agora tem boas razões para isso.

De um lado, a economia brasileira estabilizada pela faxina tucana e depois fortalecida pelos fantásticos ventos favoráveis que sopraram no mundo inteiro, e na América Latina em particular, em 2007 e 2008. De outro, o fato de que a crise começou no coração da maior potência e se alastrou para todo o mundo rico, principalmente para a Europa.

Resultado: Lula junta as duas pontas e sai sorridente por aí ensinando aos EUA e à Europa o quê, como e quando fazer. Até o Proer, para sanear os bancos!

A não ser que haja uma hecatombe não prevista, portanto, crise não vai contra Lula, mas a favor. Como escrevi na Folha no último domingo, ele espera que "a conjunção crise, posse de Obama e nova arquitetura financeira internacional catapulte o Brasil como protagonista internacional". E ele, como um líder emergente.

Já mandou carta para o presidente da França, Nicolas Sarkosy; foi o terceiro líder estrangeiro a se encontrar com Obama na Casa Branca e vai receber o primeiro-ministro britânico Gordon Brown na quinta da próxima semana.

Depois, tem reunião da "liderança progressista" no Chile, Cúpula das Américas em Trinidad Tobago e G20 em Londres. Na crise, os líderes das grandes potências baixam a crista. E Lula canta de galo.

Atualização da última Pensata "Uma atrás da outra" : depois do castelo, do casarão e do pagamento de horas "extras" sem horas "ordinárias", continuam saindo podres do Congresso.

Vamos ao Senado: "nepotismo terceirizado", o filho do diretor que morava em apartamento funcional, o Sarney mandando seguranças pagos com dinheiro público para o Maranhão (e ele é eleito pelo Amapá!) e a Roseana presenteando os amigos com passagens aéreas da cota de senador para o fim de semana na residência oficial da presidência.

Como a gente ia dizendo, o nível de desgaste do Congresso está ficando insuportável.

Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.


E-mail: elianec@uol.com.br

domingo, 15 de março de 2009

No Brasil, 47% dos idosos fazem sexo regularmente



PAULO SAMPAIO
da Folha de S.Paulo

Do bolso do microempresário Nélson Oliveira, 66, não sai um tostão para comprar Viagra. E ele garante que, desde que se casou, há 48 anos, transa diariamente com a mulher. Ao lado, Néia, 65, só confirma. "É sim, é sim."

Quando o assunto é desempenho sexual, com frequência se apela a uma testemunha -ainda mais quando quem fala é alguém do sexo masculino e de terceira idade.
Marisa Cauduro/Folha Imagem

O músico Jurandir Bueno, 62, com sua namorada, Sônia Arakaki, 62, bailarina

Feitas as contas, Oliveira teve com a mulher 17.540 relações nesses quase 50 anos, pontual como um relógio cuco e sem ajuda química.

Esse índice de "abstenção zero" pode gerar polêmica, mas, a julgar pelo Datafolha, a vida sexual após os 60 é mais movimentada do que prega a maledicência popular, que costuma enxergar na terceira idade o fim do erotismo.

Quase metade dos idosos ouvidos na pesquisa declara ter relações sexuais -um quarto deles, uma vez ou mais por semana. Mesmo na faixa dos maiores de 75, 24% se revelaram sexualmente ativos.

Os mais afoitos podem dizer que, com o advento das drogas para disfunção erétil, agora é fácil. Só que 88% dos homens entrevistados dizem nunca ter usado remédio, embora até admitam alguma mudança no desempenho.

Exemplo: o músico Jurandir Bueno, 62, retratado na capa deste caderno com a namorada, a bailarina Sônia Arakaki, 62, jura que nunca tomou nada e que vai transar até o fim da vida; confia no próprio corpo, diz. Só faz uma ressalva: "O processo é demorado". "Gosto de conhecer bem a pessoa, preciso estar envolvido. Não sou uma máquina!"

Jurandir "pesquisou" a bailarina durante quatro meses, até irem para a cama. "Eu também não estava com pressa. Com a idade, as coisas ficam mais tranquilas", conta Sônia, que foi casada durante 20 anos e tem três filhos.

Reféns do machismo

Em qualquer faixa etária, é previsível uma dose de exagero ou, digamos, de inverdades sobre o desempenho sexual, afirma o geriatra Wilson Jacob Filho, colunista da Folha. Ainda mais quando mexe com alguns tabus da masculinidade. "O que se espera deles é que se mantenham viris, e os que não são suficientemente esclarecidos associam a dificuldade sexual à incompetência, e não a doenças como diabetes, hipertensão, depressão ou problemas na próstata."

Jacob dá um exemplo de como a imagem é fundamental. "Quando o HC tinha o Laboratório da Impotência, atendia dez pessoas. Mudaram o nome para Laboratório da Disfunção Erétil, e o número de pacientes foi para uns 10 mil", conta, rindo.

Na pesquisa Datafolha, a diferença de visão do sexo entre homens e mulheres revela um dado paradoxal: 74% dos homens afirmam ter vida sexual ativa, enquanto 76% das mulheres dizem exatamente o contrário. Considerando que o índice de casados de terceira idade é 47%, com quem eles transam?
Marisa Cauduro/Folha Imagem


O microempresário Nélson Oliveira, 66, é casado há 48 anos com Néia, 65, com quem diz ter relações sexuais todos os dias

Existem várias possibilidades, dizem os especialistas: sozinho (masturbação), com companhias eventuais ou usando outras formas de atingir o orgasmo, sem penetração peniana.

E as esposas "Muitas mulheres consideram sua missão sexual cumprida depois da procriação e acabam consentindo tacitamente que o marido se mantenha ativo", diz Dorli Kamkhagi, da USP.

Embora faça questão de sexo, a cabeleireira Sônia Maria Gonçalves, 63, casada três vezes, três filhos, conta que, com a menopausa, dispensou temporariamente os "serviços" do segundo marido.

"Acabou a euforia. Ele foi o homem que mais me ensinou coisas, mas mesmo assim eu não queria saber de sexo. Até disse: 'Pode procurar outra, que comigo não rola'."

Há seis meses, Sônia descobriu um câncer de mama e retirou o seio direito, mas diz que isso não atrapalhou em nada o relacionamento entre ela e o atual marido, que tem 54 anos. "No começo fiquei constrangida, mas ele disse que isso era bobagem e pediu para ver o curativo."
A palavra-chave é compreensão, define o empresário Wanderlei Marques, 62, casado há 32 anos. "Quando você é recém-casado, toda hora é hora. É aquela loucura. Mas, como a gente faz muitas vezes, a qualidade fica pra depois."

Ele conta que, em todos esses anos, o período sexual mais difícil foi quando nasceu o primeiro filho. "A mãe, ali, é só da criança. Se você estiver com vontade, vai continuar."

Wanderlei não se incomoda em dizer que usa remédio. "Não adianta dizer que a disposição sexual não cai com a idade. Por sorte, a medicina está a nosso favor."

E manda seu último recado: "Não existe Viagra pra mulher. Então, se você toma o comprimido, mas ela está fria, não adianta nada".

sábado, 14 de março de 2009

Câmara monta comissão inédita para analisar pedido de cassação contra deputado do Castelo



Perfil

Fernando Rodrigues, jornalista, nasceu em 1963. Fez mestrado em jornalismo internacional na City University, em Londres, Reino Unido (1986).

* Pânico toma conta de deputados, pois cassação de Edmar pode abrir a porteira que outros 50 ou 100 percam mandato
* Argumento jurídico sólido manda cassar quem usa verba indenizatória para pagar em empresa de sua propriedade


O corregedor da Câmara dos Deputados, ACM Neto (DEM-BA), decidiu montar uma comissão para analisar o pedido de cassação de Edmar Moreira (ex-DEM-MG; hoje sem partido), o homem do castelo. Trata-se de um procedimento inédito em casos dessa natureza.

A criação dessa comissão se dá pela gravidade das consequências do processo. O pânico se espalhou pela Câmara porque Edmar Moreira tem chance real de ser cassado por ter –ainda a ser confirmado– usado notas fiscais de suas próprias empresas (ou de parentes e/ou amigos) para justificar gastos de R$ 140 mil com segurança privada no ano passado.

Edmar Moreira fez fortuna com empresas de segurança. O PSOL representou contra ele, alegando que teria havido quebra de decoro, com o suposto uso das próprias empresas para comprar um serviço.

Ainda não estão públicas as notas fiscais de Edmar Moreira, mas seus amigos dentro da Câmara têm dado a entender que os documentos serão mesmo de uma empresa ligada ao deputado do castelo. Por essa razão há o temor dos outros congressistas: dezenas deles usam seus postos de gasolina para abastecer os próprios carros; suas empresas de comunicação para comprar espaços publicitários e veicular suas propagandas; e assim por diante. Tudo com o dinheiro da verba indenizatória mensal de R$ 15 mil a que cada um tem direito.

Se Edmar for cassado, acaba com o episódio ou seria apenas a abertura de uma porteira por onde passariam mais 40, 50 ou 100 deputados?

Na dúvida, será criada uma comissão pluripartidária inédita para analisar o caso de Edmar Moreira. Os nomes cogitados são os seguintes, além do próprio ACM Neto que será o coordenador do grupo:

* José Eduardo Cardozo (PT-SP)
* Osmar Serraglio (PMDB-PR)
* Régis de Oliveira (PSC-SP)
* Flávio Dino (PC do B-MA)

Os 5 deputados vão receber copia da defesa de Edmar Moreira, analisarão as notas fiscais e terão plenos poderes para fazer diligências e apurar o caso. A idéia é que a decisão final, sobre abrir o processo de cassação, tenha respaldo jurídico e político dentro da Câmara.

Argumentos

É fortíssimo argumento contra Edmar Moreira. Até porque sua defesa é pífia, lastreando-se apenas em aspectos de cunho pessoal.

Edmar Moreira argumenta que a Câmara não proíbe deputados de contratar serviços de segurança. Nesse caso, pergunta um amigo de Edmar Moreira, familiarizado com o episódio: “Não existe serviço mais pessoal e sensível do que o de segurança pessoal. Se eu tenho uma empresa, por que teria de evitar usá-la para contratar os serviços de um concorrente, colocando minha vida nas mãos de uma pessoa fora do meu círculo de confiança?”.

Mas o argumento contra Edmar Moreira é mais sólido e juridicamente embasado. O Código de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara diz claramente quais são os casos em que o deputado pode ser processado. No artigo 5º do código, inciso 7º, está escrito que atentam contra o decoro parlamentar quem “usar verbas de gabinete em desacordo com os princípios fixados no caput do art. 37 da Constituição Federal”.

E eis o artigo 37 da Carta: “A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”.

Ou seja, há quebra de decoro quando um congressista gasta sua verba de gabinete para pagar serviços da contratados de empresa de sua propriedade. Quem faz isso está ferindo diretamente os princípios da impessoalidade e da moralidade. Ou seja, Edmar Moreira estará em situação ruim se de fato usou sua verba indenizatória para pagar serviços prestados por uma empresa de sua propriedade.

Mas esse é o menor problema para o deputado Edmar Moreira e para a Câmara. Como se costuma dizer nos corredores do Congresso, pau que bate em Chico também bate em Francisco. O sólido argumento jurídico para tirar o mandato de Edmar servirá também para a cassação de outras dezenas que por ali fazem a mesma coisa?


Eia aí a razão de ACM Neto estar montando essa comissão especialíssima para discutir o caso Edmar –e o futuro de uma grande parte dos deputados da Câmara.


Por Fernando Rodrigues

Protogenes: Satiagraha era ‘missão da presidência’

Folha Online - Blogs - Josias de Souza

domingo, 8 de março de 2009

O estupro e a excomunhão

06/03/2009

Não sou religioso --e, ainda por cima, sou judeu. Talvez não seja o indivíduo mais recomendado para comentar a decisão da Igreja Católica de excomungar a mãe da menina de nove anos em Pernambuco e os médicos que fizeram o aborto --a menina, de 9 anos, estava grávida do padrasto. A excomunhão me parece um segundo estupro.

Apesar de discordar, posso entender que a Igreja condene o aborto. Até, fazendo força, entendo que condenem um padre, parlamentar do PT, que defendeu o uso da camisinha. São posições arcaicas e, na minha visão, prejudiciais à saúde pública, mas se inserem em princípios.

O que não consigo entender é por que estão humilhando e fazendo sofrer ainda mais a mãe da menina grávida, já condenada a um drama familiar --um sofrimento que se estende para a garota, que fica como filha de uma excomungada. Quem conhece a religiosidade do interior do Nordeste sabe o peso disso.

Faltou aí não só bom senso, mas humanidade. Duvido que essa seja a opinião da maioria dos católicos.



Gilberto Dimenstein, 52, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às segundas-feiras.

E-mail: palavradoleitor@uol.com.br

Emprego pela internet

Anna Paula Buchalla
abuchalla@abril.com.br




Desde janeiro – mês em que o desemprego deu um salto de 6,8% para 8,2% –, aumentou a movimentação nos maiores sites de emprego na internet. No Catho Online, um dos mais acessados do país, o número de visitas mensais dobrou. No vagas.com.br, o cadastro de novos currículos cresceu 93%.

Esses sites não são garantia de emprego. Mas são uma maneira de encurtar os prazos de um processo de seleção. No velho sistema, aquele em que a empresa coloca um anúncio no jornal e o interessado envia um currículo em papel a seu RH, o prazo para chegar à entrevista é de dez dias, em média. Na internet, em questão de minutos obtêm-se os nomes mais indicados para a fase do contato pessoal. Isso é possível graças a um software que acelera a triagem dos candidatos. O prazo total de contratação também fica mais curto na internet. Na recolocação tradicional, o tempo médio gasto com formalidades é de 35 dias. Pelo banco de dados na rede, todo o processo pode levar meros sete dias.

Há mais de 100 sites brasileiros de emprego on-line. Eles surgiram no fim dos anos 90 e ganharam força, sobretudo, nos últimos cinco anos. Embora sejam úteis, eles não podem, e nem devem, ser a sua única ferramenta na busca por uma vaga. Os especialistas recomendam recorrer também aos sites das próprias empresas onde se almeja trabalhar. Algumas oferecem formulários de recrutamento diretamente em seus endereços eletrônicos. Outra dica é acionar e manter ativa a sua rede de relacionamentos pessoais e profissionais. VEJA consultou especialistas dos cinco maiores sites de emprego do país para saber qual o mais indicado para os diferentes perfis e níveis profissionais.



Catho online
Para quem é mais indicado: profissionais com nível superior. Quase metade das vagas é destinada a quem tem esse perfil
Total de cadastrados: 200 000
Quantos conseguem emprego: cerca de 7 000 por mês
Tempo médio de espera entre os que conseguiram emprego: três meses
Quanto custa: há um período de testes gratuito de sete dias. Depois, o candidato precisa se encaixar em algum dos planos pagos, cujo preço varia de 59 reais (o mensal) a 498 reais (o anual). Estagiários e portadores de deficiência pagam a metade
www.catho.com.br



Vagas
Para quem é mais indicado: embora as vagas atendam a todos os segmentos, seu forte é a seleção de trainees e estagiários
Total de cadastrados: 2,4 milhões
Quantos conseguem emprego: não informado
Tempo médio de espera entre os que conseguiram emprego: três meses
Quanto custa: gratuito para todos os candidatos
www.vagas.com.br



Empregos
Para quem é mais indicado: profissionais da área administrativa. Quase 20% das vagas são para setores de contabilidade, economia, recursos humanos e vendas
Total de cadastrados: 1 milhão
Quantos conseguem emprego: não informado
Tempo médio de espera entre os que conseguiram emprego: três meses
Quanto custa: grátis nos primeiros dez dias. O plano mensal custa 35 reais, o trimestral 89 reais e o anual 315 reais
www.empregos.com.br



Curriculum
Para quem é mais indicado: quase 30% das vagas se destinam a profissionais da área de vendas. São cargos que exigem, em geral, ensino médio e nível técnico
Total de cadastrados: 4 milhões
Quantos conseguem emprego: 20 000 por mês
Tempo médio de espera entre os que conseguiram emprego: de um a seis meses
Quanto custa: inicialmente, o serviço é gratuito. Ele passa a ser pago quando o candidato opta por dar destaque a seu currículo nas listas de buscas. O preço vai de 36 reais (o plano mensal) a 462 reais (o plano trimestral com serviço de análise de currículo e dicas para a entrevista de emprego)
www.curriculum.com.br



Manager online
Para quem é mais indicado: um quarto das vagas se destina a atendimento em call centers, que costumam exigir apenas nível médio dos candidatos. Há ainda cerca de 22 000 vagas só para estagiários de todos os segmentos profissionais
Total de cadastrados: 100 000
Quantos conseguem emprego: 6 000 por mês
Tempo médio de espera entre os que conseguiram emprego: de um a três meses
Quanto custa: os primeiros sete dias são gratuitos. Depois, o preço varia de 59 reais (o plano mensal) a 249 reais (o semestral). Estagiários pagam a metade
www.manager.com.br

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Do amor

Retratado para o grande público no filme “Henry e June”, o escritor americano Henry Miller (1891-1980) foi uma das mais importantes presenças literárias do século.

Embora seu valor ainda esteja para ser reconhecido - há quem o acuse de ser apenas um autor pornográfico - seus textos continuam mais atuais que nunca.

A seguir, vemos um exemplo:

“O que mais se pode pedir além de afogar-se na enorme onda do amor, e ser derrotado como ser humano, mas ser vitorioso como alguém capaz de amar. Amantes de Deus, amantes de outros seres humanos, das as criaturas grandes ou pequenas!”

“Na aparente derrota do amor, renascemos de novo - e esta é a única razão que temos para continuar na Terra”.

Jewish mystics pg 86

Postado por Paulo Coelho em 25 de fevereiro de 2009 às 01:35

Obama diz que EUA vão sair mais fortes da crise. Alguém duvida?



......"O peso desta crise não irá determinar o destino desta nação. As respostas para os nossos problemas não estão além do nosso alcance. Elas existem nos nossos laboratórios e universidades; nos nossos campos e fábricas; na imaginação dos nossos empreendedores e o orgulho do povo mais trabalhador da Terra. Essas qualidades que fizeram da América a maior fonte de progresso e prosperidade na história humana nós ainda temos em ampla medida. O que é necessário agora é esse país se unir, confrontar com coragem os desafios que enfrentamos e se responsabilizar pelo nosso futuro mais uma vez", afirmou.........

Até o discurso é bem diferente de outros presidentes, principalmente, de uma turminha da América do Sul! Quem duvida que os EUA voltará a ser o que era? Eu não quero duvidar!!

Falência educacional: complô ou lógica?


Revista VEJA | Edição 2100 | 18 de fevereiro de 2009

dubitandum
Gustavo Ioschpe
Economista, especialista em educação “de omnibus dubitandum est”
(duvide de tudo)

Coluna de Cláudio Moura Castro e o Carnaval

Na Veja, do 18 de fevereiro, Cláudio de Moura Castro, economista, articulista, estudioso e incentivador das redes sociais, escreveu sua coluna cuja título: Vamos de mal a pior?
Achei bastante interessante, como acho a maioria dos seus artigos, onde ele aborda: " alguns só conseguem enxergar o lado feio do mundo....... Mas, no que se pode medir ou contar, a história é outra. O mundo está pior? Vamos compará-lo com o de um século atrás.....Na última década, reduziram-se em 40% as guerras....." Especificamente dados relativo ao Brasil:.... "Haverá algum país que estava pior que o Brasil em 1900 e hoje lhe passou à frente? Não encontrei nenhum. A maioria dos países latino-americanos, incluindo o Peru, era bem mais rica do que o Brasil. A renda per capita da Argentina foi cinco vezes maior (hoje é quase igual). Em 1905, o Brasil era como a Bolívia de hoje. Em 1958, Cuba era o segundo país mais rico da América Latina, Desde então, não fez senão retroceder..... O século XX transformou espetacularmente o país. Entre 1870 e 1987 o PIB brasileiro cresceu 157 vezes, o japonês 87 e o americano 53. Brasil, campeão do mundo!.....Em 1900, 95% das crianças (entre 7 e 14 anos) não frequentavam escolas. Hoje, apenas 2% ficam fora....Hoje, continua medíocre, mas é para todos e há ilhas de excelência...." ele encerra assim: " Porém, não podemos festejar a situação presente, pois para o progresso futuro precisamos ser obstinadamente inconformistas."
Caro Cláudio, imaginemos se tivéssemos a mesma energia,disposição, capacidade de mobilização, também o desempenho e empenho da mídia, que temos para o Carnaval, (veja não que eu não goste da folia do momo) para as questões de importância e de interesse nacional? Como as grandes reformas - ( que ouça falar há muito, mas o ritimo de efetivação ainda está num compasso muito lento), combate a corrupção ( a qual dispensa comentários), melhoria do nosso nível de educação, investimentos em infra-estrutura de forma mais inteleginte e reponsável,etc.! Qual seria a posição em termo de mundo (nos mais variados segmentos) deste país chamado Brasil?

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Metrô de Curitiba 'enterra' parte da cidade-modelo idealizada na década de 70

Marcus Vinicius Gomes
Especial para o UOL Notícias
Em Curitiba (PR)

O metrô de Curitiba, que, segundo a prefeitura, começa a ser construído em 2010, "enterra" parte da cidade-modelo idealizada, na década de 1970, em que se destacava o sistema de transporte urbano de linhas integradas e canaletas exclusivas.

O projeto concebido pelo Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), órgão do município responsável pelo metrô, prevê que 19 dos 90 quilômetros de canaletas por onde trafegam atualmente os ônibus serão transformados em bulevares ou parques lineares de lazer e sob eles, a cerca de seis metros de profundidade, circulará o metrô curitibano.

Em março, o grupo de empresas que venceu a licitação para a realização do projeto básico de engenharia e de estudo de impacto ambiental dará início aos trabalhos que devem ser entregues até o fim do ano. A previsão da prefeitura é que as obras sejam concluídas em 2017, mas há a perspectiva de que um trecho seja inaugurado em 2014, caso a capital do Paraná seja escolhida como uma das 12 subsedes da Copa do Mundo de Futebol.

A Linha Azul, nome pelo qual foi batizada a obra do Metrô, terá 22 quilômetros de extensão em trecho que liga o bairro Santa Cândida, no Norte da capital, a CIC (Cidade Industrial de Curitiba), localizada na região Sul, com 21 estações.

Um dos estudos feitos para o metrô de Curitiba
Além dos 19 quilômetros, que serão subterrâneos e escavados sob a canaleta dos ônibus, num sistema chamado de "cut and cover" (cave e cubra), haverá ainda três quilômetros que correrão parte em superfície, na região da CIC, onde será construído um complexo que contará com pátio de estacionamentos e um serviço de aluguel de bicicletas, e parte sobre um elevado de 500 metros, na avenida Winston Churchill, que corta a rodovia federal BR-476.

A prefeitura não informa o custo do projeto, porém, segundo projeções do Banco Mundial, cada quilômetro de metrô subterrâneo custa cerca de US$ 75 milhões, enquanto as estações são avaliadas em US$ 100 milhões. O cálculo perfaz um investimento no valor de cerca de US$ 3,7 bilhões.

Segundo o prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB), os recursos para a execução da obra ainda não foram viabilizados. As possibilidades estão nas parcerias públicos-privadas, no financimento externo e em investimentos do PAC (Programa de Aceleração de Crescimento), do governo federal.

O alto custo do empreendimento é um dos motivos pelo qual o ex-governador Jaimer Lerner já se manifestou diversas vezes contrário ao projeto. Em entrevista recente a uma emissora de rádio da capital, Lerner, responsável pela implantação dos projetos de transporte urbano de Curitiba, disse que a cidade comporta soluções mais viáveis e econômicas, que contemplem ainda o uso do ônibus. Para ele, as administrações recentes foram omissas ao não investir na infraestrutura viária, priorizando apenas o aumento da frota de ônibus.

O ex-prefeito de Curitiba, Cassio Taniguchi (1997-2004), que idealizou o eixo metropolitano, rebatizado de Linha Verde na administração de Beto Richa, também se diz contrário ao projeto do metrô e sustenta que a obra é de longo prazo e não resolve o problema imediato do transporte urbano da capital, que estaria à beira do colapso.

Outro estudo feito para o metrô de Curitiba
Consultado pelo UOL Notícias, o engenheiro civil e professor titular do Departamento de Transportes da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Eduardo Ratton, se diz favorável à construção do metrô, mas assinala que ele não representa solução.

"Não dá para imaginar que o metrô vá resolver o problema do trânsito em Curitiba. É preciso, que junto com o metrô, venha também o investimento na infraestrutura viária, coisa que os governos não vêm fazendo", afirmou Ratton.

De acordo com o professor, a precariedade das linhas de ônibus, que provoca superlotação e atrasos, levou à migração do usuário para o veículo particular. Ele cita como exemplo um dos bairros da cidade, o Batel, em que a proporção de veículos por habitante é de 10 carros para cada 9 moradores, ou seja, a frota é maior do que a população.

Ratton criticou a oposição de Jaimer Lerner em relação ao metrô e o tachou de "equivocado". Segundo o professor, ainda que a visão de arquiteto e urbanista do ex-governador seja reconhecida mundialmente, falta-lhe a perspectiva do engenheiro de tráfego. "Ora, se é preciso dar mais vazão à agua, por exemplo, aumenta-se a tubulação. No caso do trânsito é a mesma coisa, é preciso aumentar as alternativas de transporte para atender a população", afirmou.

O urbanista e professor de arquitetura da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), Carlos Hardt, elogiou o projeto do metrô, que propõe enterrar as linhas de trens subterrâneos e criar parques lineares na superfície, onde hoje passam as canaletas de ônibus. Mas lembrou, a exemplo de Ratton, que o metrô deve somente ser considerado uma alternativa de transporte, tal como ocorre em outras capitais do país.

"Se estão tentando vender o metrô como uma solução, então eu assino embaixo as palavras do Lerner. Eu digo que o que está se fazendo é apenas aperfeiçoar o transporte urbano. Se o metrô conseguir reduzir em dez minutos o tempo de deslocamento de 1 milhão de pessoas que se utilizam do sistema, a economia será enorme", afirmou.

Hardt disse ainda que a complexidade do sistema viário de Curitiba exige a construção de viadutos. Segundo ele, há situações em trechos urbanos da capital que, mais cedo ou mais tarde, exigirão obras deste porte e é preciso incorporá-las aos projetos, mesmo que eles "enfeiem" a cidade.

Copa pode acelerar recursos para o metrô curitibano

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O professor Eduardo Ratton cita o caso da Linha Verde inaugurada no ano passado, que, ao longo do trecho de 23 quilômetros apresenta 23 semáforos. "A resistência à construção de viadutos ou trincheiras num trecho de grande fluxo de carros e ônibus vai obrigar a prefeitura, mais cedo ou mais tarde, a rever o projeto", afirmou.

Ratton defende a adoção de soluções alternativas, como o aluguel de bicicletas, para deter o fluxo de automóveis, principalmente no quadrilátero da capital, e não descarta a implantação de um pedágio urbano em um futuro próximo.

Sobre o adoção de rodízio, como em São Paulo, Hardt diz que estudos indicam que a regra acabou por aumentar a frota de carros na cidade, uma vez que alguns motoristas adquiriram um segundo carro com placa diferente para contornar a lei.

O UOL procurou o presidente do Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), Cléver Ubiratan Almeida, responsável pelo projeto do metrô na capital, e foi orientado por sua assessoria de imprensa a encaminhar as perguntas por e-mail. Até o fechamento desta reportagem, no entanto, as perguntas não haviam sido respondidas.