Carta Rede Social 189
-------------------------
O EMPRESARIADO E A POLÍTICA NA SOCIEDADE HIERÁRQUICA E NA NOVA SOCIEDADE EM REDE
[Tempo estimado de leitura: 12 minutos]
‘Carta Rede Social’, ex-‘Carta Capital Social’ (e antiga ‘Carta DLIS’) é uma comunicação pessoal de Augusto de Franco enviada quinzenalmente, desde 2001, para milhares de agentes de desenvolvimento e outras pessoas interessadas no assunto, do Brasil e de alguns países de língua portuguesa e espanhola. A presente 'Carta Rede Social 189' está sendo encaminhada para 14.256 destinatários. Esperamos que esta mensagem seja útil, mas se você não quiser mais recebê-la, basta clicar aqui e enviar. Obrigado.
Prezado Paulo Moacir da Silva,
Alguns empresários têm feito um meritório esforço para incentivar um novo tipo de participação do setor empresarial na política. Não tem sido muito fácil. Tudo indica que as dificuldades encontradas não estão apenas na inadequação das formas de mobilização e organização que vêm sendo tentadas. Ou seja, não se trata de encontrar novos métodos, técnicas, artifícios ou recursos que, supostamente, seriam capazes de chamar a atenção do setor empresarial para a necessidade de assumir sua responsabilidade política. Para além do habitual descrédito que caracteriza o setor quando se trata de desenvolver uma atuação política mais proativa – acostumado que foi a intervir nos bastidores ou a exercer formas de pressão predominantemente reativas e reivindicativas – parece haver aqui um problema mais profundo, que diz respeito a natureza da atividade empresarial tal como se constituiu no capitalismo que conhecemos e às suas relações com o velho sistema político.
Freqüentemente o empresariado não fala para a sociedade, nem pela sociedade, mas apenas para si, corporativamente, e por si, quer dizer, tendo em vista apenas a si mesmo como sujeito. Não faz propostas para os outros setores ou só se comunica com eles a partir de propostas que visam a atender os seus próprios interesses. Não é por acaso que só participe da política com uma agenda de interesses: seja mandando fazer estudos de alto nível para entregar as autoridades, seja articulando lobbies nos parlamentos ou nos governos, seja financiando candidaturas, o propósito do empresariado, ao tentar influir na política, não raro se restringe a obter – via de regra do Estado – algum tipo de vantagem.
Assim agindo o empresariado não assume seu papel de ator político, não exerce protagonismo e, conseqüentemente, não é reconhecido como um agente capaz de expressar os interesses comuns da sociedade. Continua, dessarte, sendo um ator subalterno, condição que é retro-alimentada pelo velho sistema político, sobretudo pelos parlamentares que querem financiamento para fazer suas próximas campanhas e pelos governantes que querem se reeleger ou indicar seus sucessores.
Os governos, agindo com esperteza, deixam pendida sobre a cabeça do empresariado a espada da fiscalização. Eles sabem que, se for para fiscalizar mesmo, quase ninguém escapa. O empresário também sabe disso e tem medo. A conseqüência é que, quase sempre, o empresariado entra no jogo da velha política.
Também não é por acaso que ninguém preste muita atenção aos reclamos do setor empresarial. Entra ano, sai ano, é a mesma cantilena de sempre: os empresários e suas entidades corporativas afirmam que o crescimento econômico resolverá todos os problemas do país ou da humanidade, reclamam dos altos impostos, imploram pela redução dos juros, exigem políticas estatais de proteção ou concessão de algum tipo de vantagem ou privilégio setorial ou territorial (em geral nacional).
O fato é que os grandes empresários tradicionais, que estão sempre, em alguma medida, associados aos governos, parecem não gostar muito de livre mercado. A impressão que se tem é que eles querem mesmo é mais Estado – a seu favor, é claro. Isso é assim desde que surgiu o capitalismo como resultado de um bem-sucedido conúbio entre empresa monárquica e Estado hobbesiano. O resto é conversa de economistas e de filósofos do liberalismo econômico.
No último século alguma coisa mudou, é certo: o Estado-nação se democratizou um pouco, o grande capital se pulverizou nas mãos de múltiplos acionistas (conquanto as empresas tenham permanecido monárquicas do ponto de vista dos seus sistemas de governança ou modelos de gestão), mas a tendência inercial do empresariado de buscar vantagens e privilégios no Estado (como se o Estado tivesse a eterna obrigação de proteger e promover os seus negócios) permaneceu insuflando um comportamento retrógrado e regressivo dos grandes empresários do ponto de vista político. Não foi exatamente esse tipo de comportamento que vimos agora – na crise desencadeada pela descoberta dos créditos podres do sistema habitacional americano – da parte de seguradoras, bancos e montadoras de automóveis?
Um problema de concepção
Não é por acaso que os grandes empresários são sempre a favor dos governos. E não apenas por medo de retaliação fiscal, mas também por visão, por concepção. Eles pensam mais ou menos assim: pagamos escorchantes impostos, criamos empregos, dinamizamos a atividade econômica, geramos praticamente todo o produto interno bruto do país: logo, temos o direito de obter dos governos condições especialmente favoráveis de gerar cada vez mais valor para nossos acionistas. Para tanto, não podemos antagonizar qualquer governo e sim manter com os governantes (sejam eles quais forem) aquela secular sociedade que até aqui foi tão bem-sucedida. É a regra do jogo. Uma regra que empresas como Ig Farben (Agfa, Casella, Basf, Bayer, Hoeschst, Huels, Kalle), Krupp e Siemens não ousaram quebrar (mesmo quando o governante atendia pelo nome de Hitler).
Não é de espantar, portanto, que os empresários apóiem governos que praticam corrupção e banditismo (são fartos os exemplos de empreiteiras que têm levado essa prática ao paroxismo, mas não só elas: da siderurgia à intermediação financeira, quem é grande, por ação ou omissão, acaba compactuando de alguma forma com a bandalheira dos governos fora-da-lei ou carentes de legitimidade democrática). Não estão nem aí se isso acaba corroendo sua capacidade de inovar para se desenvolver. E que, como conseqüência, em vez de investirem em pesquisa e desenvolvimento para enfrentar saudavelmente a concorrência, as empresas fiquem seduzidas pelo ganho fácil que pode advir da sua associação com os poderosos. Ou fiquem tentando influir para reduzir seus riscos, obter garantias, concessional loans, às vezes, privilégios, reservas e outras proteções estatais que falsificam as regras de mercado.
Por que deveriam arriscar dinheiro com dispendiosas explorações prospectivas se já têm o mapa do tesouro nas mãos? Na sua visão torta, dinheiro público é sinônimo de dinheiro sem dono. No Brasil e em vários países com índices semelhantes de desenvolvimento humano e social, boa parte da engenhosidade empresarial se esgota na urdidura de meios para se apropriar desses recursos. As folhas corridas dos negócios de nossas grandes empresas revelarão, em algum momento, aquela mãozinha enrugada – nesse caso, nem sempre tão invisível – de uma decrépita, porém generosa, Viúva.
Como já se disse aqui, quem gosta de exalçar as capacidades autoreguladoras do mercado são os economistas (uma parte deles, pelo menos). Empresários tradicionais já estabelecidos, que têm como preocupação central garantir a qualquer custo a sua posição no mercado para galgar posições cada vez mais altas, não caem nessa conversa. Eles não são – nunca foram – ideólogos do capitalismo dos livros, quer dizer, adeptos das ideologias construídas sobre o capitalismo, como o liberalismo econômico ou neoliberalismo.
Há quem goste, realmente, de livre mercado: os empreendedores emergentes. Mas eles gostam do livre mercado não em razão de alguma conversão ao credo econômico liberal e sim porque precisam de fato da liberdade do mercado para poder entrar no mercado. Quem já está dentro, em geral, não gosta dessa liberdade porque encara a concorrência como uma ameaça às posições que conquistou.
Políticas estatais no campo econômico voltadas ao empresariado, como as chamadas políticas industrial, agrícola, comercial ou bancária, envolvem quase sempre uma dose de oferta estatal de subsídios (direta ou indiretamente, por meio de regulação favorável e quase sempre casuística, incentivos e renúncia fiscal), quer dizer, de valor que não foi gerado diretamente pela atividade econômica empresarial, mas adveio da transferência de recursos fiscais. Em outras palavras, o modelo transfere recursos públicos (da sociedade) para a atividade privada (dos empresários). Tudo é sempre uma variação do protecionismo, algumas vezes de caráter nacional, outras vezes de caráter setorial. Os burocratas estatais escolhem então alguns setores que deverão ser protegidos do livre mercado, seja em nome de um suposto interesse estratégico nacional, seja em nome da segurança nacional, seja em nome da necessidade de distribuir renda ou de gerar mais empregos ou mais superávits para financiar direta ou indiretamente algum sistema de proteção social.
O fato é que os assim chamados “grandes capitalistas” tradicionais conquanto não gostem muito do capitalismo tal como está nos livros, com toda aquela conversa de igualdade de oportunidades e da liberdade do indivíduo de empreender, até aceitam as inovações incorporadas pelo capitalismo hodierno, como as políticas governamentais de distribuição de renda, mas ficam com um pé atrás quando se trata da distribuição de riqueza (ou democratização do acesso à propriedade produtiva). Querem, sim, mais consumidores (com renda suficiente para comprar seus produtos e serviços), mas não mais empreendedores (que são vistos como potenciais competidores). No limite, se todos forem capitalistas, o capitalismo – tal como o concebem – desmonta-se. Capitalismo bom, para eles, é o capitalismo em que só alguns são capitalistas. Se todos se dedicarem à atividade empresarial, correndo atrás da realização dos seus próprios sonhos, quem se disporá a alugar sua força de trabalho para realizar o sonho alheio? Sem poder se apropriar de um sobrevalor gerado pelo trabalho coletivo daqueles que renunciaram – ou não tiveram condições de – ter seu próprio negócio (isto é, os empregados, eufemística e incorretamente chamados de “colaboradores”), os grandes empresários tradicionais avaliam que perderiam o estímulo para manter seus negócios.
Uma sociedade de empreendedores não seria uma sociedade capitalista; não, pelo menos, tal como o capitalismo foi praticado até aqui: concentrando riqueza ou estabelecendo condições diferenciais de acesso à propriedade produtiva e aos recursos humanos e sociais necessários para dinamizá-la.
Os velhos argumentos empresariais
Os empresários tradicionais dizem que as coisas não são bem assim no mundo real. Alguns alegam que nem todos são “por natureza” empreendedores (como se o empreendedorismo dependesse da presença de um gene).
Outros argumentam que o empreendedor é estimulado a sê-lo em virtude de uma herança cultural adquirida a partir do berço, no meio familiar ou social em que nasceu ou foi educado, e que, infelizmente, nem todos têm tal oportunidade na sociedade em que vivemos.
Outros, ainda, dizem que essa condição ideal só se materializaria em sociedades igualitárias e/ou ricas o suficiente para proporcionar a todos o capital inicial necessário para investir em um negócio próprio.
Por último, há os que levantam – com certa razão – que ainda que todos tivessem as mesmas condições econômicas, humanas e sociais para empreender, só uma parte da população se dedicaria à atividade empresarial, em virtude da saudável diversidade de vocações, gostos e preferências pessoais. Tem gente que não quer viver uma aventura desse tipo, seja porque não suporta psicologicamente os riscos que lhe são inerentes, seja porque quer se dedicar às artes, à ciência, à política, à vida comunitária, à espiritualidade ou à contemplação. Além disso, há várias formas de empreendedorismo – social, cultural, político – e não apenas a forma econômica empresarial.
Afastada, porém, a hipótese genética (que além de ridícula é perigosa), muitas questões se colocam a partir desses argumentos. Entre os que argumentam que alguns, embora sendo geneticamente iguais, ficaram diferentes dos outros – ou se destacaram dos demais – desenvolvendo capacidades especiais por razões fortuitas ou em virtude das condições peculiares em que viveram (da infância à idade adulta), encontram-se os propagadores das ideologias do liderancismo. Essas ideologias, que têm contaminado os meios empresariais nas últimas décadas, mereceriam um tratamento a parte. Seu sentido, em geral, é claramente legitimatório ao apresentarem razões individuais para “explicar” por que só alguns vencem na vida ou fazem sucesso (numa acepção competitivo-excludente da idéia).
Nos argumentos dos que levantam – com razão – que nem todos fazem a escolha pelo empreendedorismo empresarial, camufla-se freqüentemente a natureza do problema. É claro que isso é verdade. Mas a natureza do problema só se revelará se conseguirmos explicar por que, entre todos os que escolhem se tornar empresários, só alguns conseguem trilhar satisfatoriamente tal caminho. Vista nestes termos a questão poderia ter uma resposta estatística: ora, porque em qualquer atividade submetida a uma dinâmica variacional – e, portanto, dependente, em grande parte, do acaso – só uma porcentagem dos agentes consegue se adaptar e sobreviver (o que, no caso, significa crescer).
No entanto, as coisas não seriam exatamente assim se o sistema “funcionasse” de maneira diferente. Num sistema em que o crescimento não fosse a condição de sobrevivência, todos – os que quisessem, bem-entendido – poderiam ser empresários, desde que não precisassem crescer para sobreviver, mas apenas se desenvolver. Em um mundo desse tipo bastaria empreender atividades econômicas para ser empresário, sem a necessidade de ter que se associar ao poder estatal para conseguir condições diferenciais de vender ilusões (gastar com marketing pesado), aprisionar corpos (alugar e confinar força de trabalho alheia), construir pirâmides (erigir organizações hierárquicas com dinâmicas de funcionamento baseadas em comando-e-controle) ou travar guerras (encarar os demais players como inimigos e se comportar adversarialmente na relação com eles).
Mudanças à vista
Na transição, que está em curso, do velho mundo industrial para uma nova era do conhecimento e da sociedade hierárquica para uma sociedade em rede, já se percebem alguns sinais de mudança para novos tipos de capitalismo ou novos ‘modos de produção’ (como se dizia) nos quais o desenvolvimento humano e social passa a ser a principal condição para empreender economicamente. É o caso, por exemplo, da peer production e do crowdsourcing, nos quais miríades de empreendedores se conectam em rede para produzir algum bem ou para prestar algum serviço, sem ter a necessidade de reter em suas mãos a propriedade dos ‘meios de produção’ (como se dizia) e toda uma infra-estrutura material e uma super-estrutura política (idem) para manter o acesso diferencial a tal propriedade.
Na medida em que o principal fator de produção passa a ser o conhecimento – um recurso intangível, que não pode ser estocado, aprisionado, protegido, separado, sob pena de decrescer e perder valor, mas, ao contrário, quando compartilhado e submetido à polinização ou à fertilização cruzada com outros conhecimentos, cresce, dá origem a novos conhecimentos e aumenta de valor (gerando inovação) – o novo empresário não precisará mais de uma estrutura hard instalada para produzir e nem, muito menos, de apoio político privilegiado para manter em suas mãos tal estrutura funcionando.
Parece evidente que, em tais condições, tendem a ser rompidos os velhos laços de interesse recíproco e as relações deformantes entre privado e público estabelecidas entre os empresários e o sistema político.
Os que acham que isso só ocorrerá em futuro remoto, podem estar correndo sérios riscos. Pois sobreviverão nestas novas formas de capitalismo ou de empreendedorismo empresarial apenas os que estiverem preparados para se adaptar às mudanças que já se anunciam.
Tal preparação implica uma mudança radical de comportamento. Em vez de tentar conseguir vantagens comparativas na base da esperteza em se apropriar de recursos da sociedade, as empresas que quiserem aumentar suas chances de sustentabilidade devem investir em pesquisa e desenvolvimento para conseguir se manter inovando continuamente, vivendo a vida dos “ecossistemas” em que estão inseridas e contando com os recursos de uma ampla rede de stakeholders – recursos estes que elas não conseguiriam comprar sozinhas sem inviabilizar sua inserção no mercado (uma grande empresa pode contratar 200 especialistas em um assunto, mas não pode contratar 2 mil para cada assunto relacionado à sua atividade, sob pena de não conseguir praticar preços competitivos; e para se manter na ponta da inovação, logo, logo, será necessário lançar mão de processos de inteligência coletiva que envolvem multidões de interagentes livres e não apenas algumas poucas dezenas ou centenas de cérebros confinados).
Para tanto, é claro, a empresa terá que deixar de ser uma unidade administrativo-produtiva isolada e passar a ser um comunidade de negócios configurada na rede de seus stakeholders, o que significa dizer que ela terá que iniciar a transição da sua forma atual empresa-pirâmide para uma empresa-rede.
Não, não se trata aqui de especulação sobre um futuro longínquo. Agora é a hora. Iniciar tal transição já implica adotar um novo comportamento político.
Até a ‘Carta Rede Social 190’ e um abraço do
Augusto de Franco
augusto@augustodefranco.com.br
7 de maio de 2009.
LEVANDO A SÉRIO O DOMÍNIO PÚBLICO
Os dois primeiros livros da coleção Escola de Redes já podem ser baixados em formato PDF:
Escola de Redes: Novas visões sobre a sociedade, o desenvolvimento, a internet, a política e o mundo glocalizado.
Escola de Redes: Tudo que é sustentável tem o padrão de rede: sustentabilidade empresarial e responsabilidade corporativa no século 21.
Clique no link abaixo para fazer o download em PDF:
http://www.vintequatro.com/2008/10/13/levando-a-serio-o-dominio-publico/
Para adquirir exemplares em papel escreva para livraria@aed.org.br. Pode demorar um pouco, é fato, mas tenha fé que você recebe!
Canva Pro
Há 4 anos

Nenhum comentário:
Postar um comentário